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50 anos depois, a guerra cultural pelo século XXI passa na televisão

todaymayo 20, 2021

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Imagine-se 1971. Os sucessivos dramas judiciais na América: a condenação do tenente William L. Calley por crimes de guerra no massacre de My Lai, Vietname (e logo amnistiado por Nixon); a pena capital para Charles Manson e “família” (que viria a ser comutada por prisão perpétua); o julgamento de Alan Passaro, um dos Hells Angels mobilizados como seguranças para o nefando concerto de Altamont, onde matou um dos espectadores (o júri absolveu-o: auto-defesa); ou ainda a activista Angela Davis sentada no banco dos réus, por sequestro e homicídio. Imagine-se 1971: o ano da famosa experiência psicológica de Stanford, em que uma prisão simulada nos deu uma assustadora percepção de como os humanos, diluídos num colectivo, funcionam sob a autoridade; o ano do maior motim prisional da história dos Estados Unidos, em Attica, que acabou de forma sangrenta, com 43 mortos. Imagine-se o fim do flower power. Sem Beatles, com os Rolling Stones exilados no Sul de França, por fuga ao fisco britânico. Com Sly Stone incomunicável, perdido em trips, e Jim Morrison morto.

Imagine-se o auto de fé de uma era – e que, das cinzas desse tempo que arde em pleno terreiro, um outro nasce; que, por um momento, esses tempos coexistem, criando um vórtex que suga os planos político, social e cultural. Há muito que os mais entusiastas sacralizam 1971 dessa forma, um ano charneira que é frequentemente apresentado com o “pico” do rock. Um deles é o jornalista britânico David Hepworth, que escreveu 1971 – Never a Dull Moment: Rock’s Golden Year e impressionou James Gay-Rees quando lhe fez o pitch do seu livro. “Lembro-me de estar sentado enquanto ele me dava o contexto do que tinha acontecido social e politicamente, juntamente com os álbuns editados naquele ano”, disse Gay-Rees à Variety. “Como muita gente, sou grande fã das bandas dessa altura, mas foi um daqueles momentos em que nos cai o queixo, porque a lista parecia não ter fim, e eu não conseguia acreditar que todos aqueles álbuns tinham saído naquele ano. Quer dizer, alguns dos meses [de 1971] são momentos icónicos para a música quase por si só.” Resultado: Gay-Rees voltou a unir forças criativas com Asif Kapadia, com quem partilha o Óscar de Melhor Documentário atribuído a Amy, em 2015, para criar uma série documental baseada no livro, 1971: The Year That Music Changed Everything. São oito longos e sumarentos episódios a estrearem-se esta sexta-feira, dia 21 de Maio, na Apple TV+.

Com realização repartida entre Kapadia, Danielle Peck e James Rogan, a série é densa, rica em imagens de arquivo e testemunhos dos protagonistas da época – embora sem as habituais talking heads, tal como acontecia em Amy. Um dos primeiros aspectos que impressiona nesta produção é, precisamente, a quantidade de registos audiovisuais de 1971. Públicos, privados, semi-privados, tudo. A narrativa é conduzida tanto pelo material de arquivo como pelas entrevistas feitas recentemente. Começam Graham Nash, Chrissie Hynde, Phil Spector e vai por aí afora, num sem-número de músicos, produtores, engenheiros de som, activistas e até membros do gabinete de Nixon. Mas não é uma série para iniciados. Mesmo quem esteja a ser confrontado com estes nomes pela primeira vez não se sentirá aflito para acompanhar 1971: The Year That Music Changed Everything. E vai perceber como What’s Going On, o disco seminal de Marvin Gaye, funcionou como um cavalo de Tróia na opinião pública – intervenção disfarçada de canções inofensivas. Vai perceber como “Ohio”, tema de Crosby, Stills, Nash & Young, canta o massacre de Kent State. Ou a história por detrás de “George Jackson”, de Bob Dylan. Ou como “The Revolution Will Not Be Televised”, de Gil Scott-Heron, se relaciona com a publicidade.

Em 1971, estava tudo ligado. “Penso que a música era tanto um reflexo dos tempos quanto os influenciava”, diz a determinada altura o produtor Jimmy Iovine. A omnipresença de John Lennon está lá para o provar. A música como acto de resistência. Veja-se o Concerto para o Bangladesh, de George Harrison. Ou, no combate ao racismo, ao sexismo e à homofobia, Curtis Mayfield, James Brown, Aretha Franklin, Tina Turner, Joni Mitchell, Carole King ou Elton John. Pelo meio, discretamente, despontavam o glam, o glitter e a androginia, com Marc Bolan e os seus T-Rex e, inevitavelmente, David Bowie. É dele uma das frases que funciona como epílogo para cada episódio: “Estávamos a criar o século XXI em 1971”. A série dá-lhe razão e, em termos meramente artísticos, mostra-nos The Who, Kraftwerk. E não é por acaso que, no final, provoca uma aceleração temporal até Billie Eilish. Mas tem um calcanhar de Aquiles: se era inevitável deixar muita e boa gente de fora (e se deixa…), já o foco absoluto na cultura anglo-saxónica era dispensável. Só em Portugal haveria pelo menos três discos a merecer atenção: Cantigas do Maio, de José Afonso; Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades, de José Mário Branco; e Os Sobreviventes, de Sérgio Godinho.

Apple TV+. Sex (Estreia).

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Escrito por Comunicación Cultural

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