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A música sem fronteiras de Rosalía está prestes a ouvir-se entre nós

todaynoviembre 20, 2022 4

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A música sem fronteiras de Rosalía está prestes a ouvir-se entre nós

Poucas pessoas terão passado os últimos cinco anos sem se cruzarem pelo menos uma vez com Rosalía. Mesmo quem nunca escutou El Mal Querer, o segundo álbum que em 2018 fez dela um fenómeno global e vendeu milhões de cópias, nem o mais recente Motomami, ouviu provavelmente a sua voz em bandas sonoras de séries e videojogos, a sair das colunas de uma loja, ou numa das múltiplas colaborações com estrelas da música urbana latina (C. Tangana, Bad Bunny, J Balvin, etc.), do hip-hop e r&b americanos (The Weeknd, Travis Scott), da pop e do indie (Billie Eilish, James Blake, até Oneohtrix Point Never). Também entrou em videoclipes de Harry Styles e Cardi B e num filme de Pedro Almodóvar. A mulher está em todo o lado. E entre sexta-feira, 25 de Novembro, e domingo, 27, vai estar em Portugal para um par de concertos, no Altice Forum Braga e na Altice Arena, em Lisboa.

O sucesso é merecido, mesmo que o mérito não seja só dela. Por um lado, Rosalía é – a par de cantores como Bad Bunny ou J Balvin – uma das pessoas certas no momento certo, quando por razões demográficas e não só as músicas e as culturas latinas chegam a cada vez mais gente, incluindo falantes de inglês. Por outro, ao longo destes anos, tem sabido rodear-se de artistas e colaboradores sintonizados no mesmo comprimento de onda e que aumentam o alcance da sua visão criativa, como Raül Refree, El Guincho ou C. Tangana. Claro que isto serviria de pouco se não tivesse uma voz capaz de fazer ruir fronteiras entre géneros e povos, mexendo até com quem não percebe uma palavra do que diz; e uma ânsia de conhecimento e vontade de abraçar novos sons e imagens que fazem com que se reinvente disco após disco, sem que nada soe postiço ou forçado.

Quando se estreou em disco, em 2017, com Los Ángeles, gravado com o músico e produtor Raül Refree, a sua filiação ao flamenco era óbvia, mesmo que a instrumentação minimalista chocasse alguns puristas e guardiões da tradição e outros a acusassem de apropriação cultural por ser uma mulher não-racializada, ainda por cima catalã, a apontar novos caminhos para a música dos ciganos da Andaluzia, na outra ponta do país. Mal sabiam eles que, passado um ano, a heresia seria ainda maior. El Mal Querer foi um sucesso absoluto, comercial e criativo, pegando em elementos do flamenco e usando-os para imaginar uma música nova e global, tão influenciada pelo r&b e o hip-hop dos Estados Unidos como pela electrónica experimental e as músicas criadas nas Américas que os espanhóis colonizaram. E repetimos: nada disto soa postiço ou forçado. Porque não é.

Rosalía Vila Tobella fez 30 anos há nem dois meses. E isto é crucial para compreender a música que ela e os seus contemporâneos fazem. Apesar de ter passado a infância em Sant Esteve Sesrovires, uma localidade no norte de Espanha com pouco mais de sete mil habitantes, cresceu na internet, onde todos os tempos e lugares confluem e se confundem. A sua geração é a primeira que não se lembra de outro mundo, de outra vida, pelo que é natural que não reconheça divisões culturais que para outros, mais velhos, sempre foram um dado adquirido. Historicamente, aceitamos que nas povoações fronteiriças as culturas e as linguagens de dois ou mais países se cruzem, criando por vezes algo novo. O que a internet fez aos millenials mais jovens e aos zoomers é parecido, mas as fronteiras são mais difíceis de demarcar. Isto acontece sem que a maioria o perceba, como um animal que se banha numa água que aquece devagar, devagarinho. Até que dá por si cozinhado.

Não é por acaso que há uns meses, numa entrevista ao The New York Times, ela dizia gostar “de todos os estilos” de música, que estava “tudo ao mesmo nível”. Também não é por acaso que o reggaetón – cuja influência é cada vez mais óbvia na música da catalã – hoje se confunda com o trap; nem que alguns dos mais populares rappers e produtores da actualidade samplem indie-rock, pop-punk, nu-metal ou emo dos 90s e outras músicas distantes com que se cruzaram online por acaso, enquanto os seus antecessores samplavam os discos de soul e de jazz com que tinham crescido em casa. Nada é por acaso, repita-se como um mantra. Há uma causa para tudo (ou para muito de) isto: a internet e a maneira como as redes contribuem para terraplanar tudo em seu redor.

O que não quer dizer que a música de Rosalía seja apenas digital, desligada das pessoas. Segundo a própria, Motomami, um dos melhores discos do ano, soa como soa por ela ter passado tanto tempo em digressão à volta do mundo, a viver e a trabalhar em partes dos EUA moldadas pela diáspora latina. Isso faz com que hoje o flamenco se encontre em segundo plano e seja apenas mais um espectro que paira sobre as suas canções, enquanto o reggaetón, o dembow e outros ritmos latinos assumem um maior protagonismo. Estes sons são, contudo, misturados até se transformarem em algo novo, numa pop futurista e globalizada, sexualmente liberta e empoderada mas sem vergonha de mostrar fragilidade e a dor que ela e todos nós sentimos, mesmo quando a sua, a nossa, vida parece uma festa – sem querer estar sempre a carregar na mesma tecla, a internet também tem culpas neste cartório. A lição que o disco tenta ensinar é que tudo custa menos com gente boa por perto. Seja na cama, na discoteca ou, porque não, num concerto. Sobretudo neste concerto.

Altice Arena. Dom 27. 21.00. 35€-60€ (lotação esgotada).

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Escrito por Comunicación Cultural

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