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Ela é Gigante, mas quer ser popular

todayjunio 20, 2024

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Ela é Gigante, mas quer ser popular

“Uma mulher, um palco, um sonho: ser popular.” A voz que o diz parece sair de um trailer de um blockbuster que durante duas horas nos fará saltar, encolher, suspirar e sobressaltar na cadeira do cinema. Mas, não. Estamos na sala de espectáculos do Teatro Meridional, onde as luzes desenfreadas e a música dramática antecipam a entrada em palco de Sara Inês Gigante. Não é uma actriz conhecida, nem tem milhões de seguidores nas redes sociais, mas se há coisa que ela quer ser é popular. Popular para aqueles que gostam de ir ver um espectáculo de João Baião, popular para aqueles que gostam de ir ver uma peça de Bertolt Brecht ao CCB, popular para todos. Sara não quer separar as águas, nem os públicos, antes quer juntá-los, de forma a questionar os estereótipos votados à cultura de massas e à cultura erudita. 

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© Paulo PachecoPOPULAR

Em 2021, Sara Inês Gigante estreou-se como criadora com YOLO. Um ano depois, apresentou o seu segundo projecto Massa Mãe. Em 2023, foi distinguida com a 6.ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço, com a qual apresenta agora POPULAR, que à semelhança do seu último espectáculo, também se baseia, em parte, nas vivências da artista, que a própria leva para cena no sentido de abordar questões como a síndrome do impostor, a vontade de querer ser o centro das atenções, bem como o populismo, a máquina do teatro e as fronteiras que separam os públicos. “Eu tento sempre que os meus espectáculos, embora sejam a partir daquilo que é a minha experiência ou a minha biografia, sejam sobre nós todos, que sejam coisas sobre as quais nos relacionemos. Aqui, falo sobre as minhas histórias, mas todos somos público de alguma forma, todos somos pessoas que vivem estas problemáticas e eu conto as minhas histórias, mas as pessoas podem rever-se nelas de alguma forma”, diz Sara Inês Gigante, após um dos últimos ensaios antes da estreia em Lisboa (no início deste mês, a peça foi apresentada em Guimarães e em Viseu). 

Se antes de a cortina abrir há dúvidas de que este espectáculo seja apenas sobre Sara, então é provável que elas permaneçam por mais uns minutos, vá, largos minutos. O fundo do palco é coberto por um pano, dividido em tiras, com a imagem da boca da artista. A cenografia é composta somente por um cadeirão e um microfone. No centro, está a actriz, vestida com um macacão cor-de-rosa e botas cor-de-rosa brilhantes. Num registo que lembra um espectáculo de stand-up, em que Sara fala directamente para o público, as cenas alternam entre diferentes histórias que ela conta e momentos musicais, que procuram reflectir acerca de várias temáticas. Quer seja acerca de como, desde criança, ela sempre quis ser o centro das atenções, quer seja acerca do medo de não atingir determinadas expectativas enquanto artista, aliado à síndrome do impostor, levantam-se também reflexões em torno de como o teatro pode ser uma arma de manipulação e de divisão entre as pessoas e entre cultura de massas e cultura dita erudita.

POPULAR
©Paulo PachecoPOPULAR

Esta polarização, que a artista realça não só caracterizar o universo cultural e artístico, mas também o campo político, é então mote para explorar os hábitos do público, a resistência em deixar de lado certos estereótipos e estas ideias que movem o teatro. “O espectáculo fala sobre a máquina do teatro e sobre a máquina das estratégias, mas é uma metáfora para falar sobre manipulação e para pensar esta ideia de que era importante que não nos prendêssemos tanto aos estereótipos e a separar as pessoas em caixinhas e que pudéssemos dialogar mais, o que, no mundo das artes, significaria ver uma plateia mais diversa”, sublinha. Por um lado, tem a vontade de apresentar projectos em que sinta que a plateia se está a divertir, a rir e a gostar, por outro, que, ao mesmo tempo, tragam alguma provocação ou reflexão.

No fim, confettis atirados, pipocas comidas, questões levantadas e truques revelados, Sara Inês Gigante espera deixar o público a rir e a reflectir. 

Teatro Meridional. 20-30 Jun. Qua-Sáb 21.00, Dom 17.00. 12€

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