Género, street dance e o peso do adeus: o segundo dia de ModaLisboa

Ao segundo dia de ModaLisboa, o Hub Criativo do Beato encheu-se para ver desfilar as propostas dos criadores nacionais para o próximo Outono-Inverno. Num final de tarde que arrancou com a fase final do concurso Sangue Novo — onde Maria Clara e Filipe Cerejo se sagraram os grandes vencedores —, foram os designers da plataforma Lab a dar seguimento ao programa de sexta-feira à noite.

Perita em retirar inspiração da cultura de rua, Ana Duarte deixou-se contagiar pelo ritmo da street dance. As manchas de cor (a remeter para os cartazes rasgados numa qualquer parede de Lisboa), o toque urbano do vinil e do metalizado e a sobreposição dos coses das calças (a simular os boxers à vista) foram detalhes fundidos numa única silhueta. Esta, por sua vez, mantém-se fiel ao sportswear, do qual a marca Duarte é já a embaixadora na passerelle da ModaLisboa.

 

ModaLisboa 58 Duarte
© Francisco Romão PereiraDuarte

 

“Faz todo o sentido relacionar esta colecção com a música — é das coisa que nos inspiram mais e muitos dos nossos clientes são músicos”, refere. O guarda-roupa sem género, esse, continua a ser uma bandeira. Nas 40 peças que desfilaram esta sexta-feira, mais de 30 eram unissexo. Igualmente firme segue a caminhada rumo à sustentabilidade. “É uma preocupação constante. E esta foi a nossa colecção mais sustentável até agora. Quase todos os materiais têm certificação e até os forros são biodegradáveis”, resume.

Ter uma loja própria não faz parte dos planos de Ana Duarte. Depois de marcar presença em feiras internacionais, a designer aponta a mira a espaços multimarca. Ampliar a rede de distribuição internacional (e não só) é o principal objectivo para 2022, um ano reservado ainda a um maior investimento na loja online. Ao início da noite, Ana deixou uma última promessa no ar: até dia 20 de Março, uma parte de todas as vendas no site da Duarte vai reverter para ajuda humanitária ao povo ucraniano (10€ por cada peça de roupa, 5€ por cada acessório).

 

ModaLisboa 58 Kolovrat
© Francisco Romão PereiraKolovrat

 

Mas a noite ainda só estava a começar no Hub Criativo do Beato. O programa deste segundo dia de desfiles fecharia horas depois, com Kolovrat. No cenário frio e industrial de um edifício ainda em obras, foi outra das que desorientou a bússola do género para criar peças de identidade (e corte) transversal. À rigidez de itens de abrigo contrapôs a fluidez de vestidos que dançaram ao sabor do vento. A combinação de materiais técnicos, as peças de efeito entrelaçado e o estampado de quadrícula foram outros dos apontamentos do desfile.

Béhen: o peso do adeus, por Joana Duarte

Há precisamente dois anos, Joana Duarte estreava-se na ModaLisboa — “quatro ou cinco looks”, como recorda —, numa apresentação colectiva da plataforma Workstation, que teve lugar no histórico edifício dos Paços do Concelho. Dois anos que têm o peso de uma longa caminhada para a Béhen. A marca evoluiu para a plataforma Lab (onde uma das exigências é mostrar uma colecção substancialmente maior), pisou a Semana da Moda de Londres, caiu nas graças de estrelas internacionais do mundo da música e ainda abriu um pequeno atelier e showroom próprio no centro de Lisboa.

 

ModaLisboa 58 Béhen
© Francisco Romão PereiraBéhen

 

Ao ritmo imposto pelo próprio sistema sazonal de colecções, soma o peso das histórias de mulheres e famílias inteiras, latentes em cada toalha ou colcha convertida em vestuário. Nesta sexta-feira, a jovem designer pediu tempo e deixou em aberto a possibilidade de fazer uma pausa nas apresentações. “São técnicas que precisam de tempo e sinto que mostrar duas vezes por ano me deixa sem tempo. O projecto tem conseguido evoluir, mas temos de ser transparentes nisto — tem sido de loucos”, explica.

A palavra, código de despedida, repete-se vezes sem conta, até no próprio nome da colecção apresentada ao início da noite: “Adeus, até ao meu regresso”. Baseada na história da própria família, Joana Duarte extraiu pequenos elementos presentes em relatos de outrora e incorporou-os nas propostas para o próximo Inverno. Do tapete de Arraiolos que estava na sala à toalha de Viana do Castelo estendida sobre a mesa — dando continuidade ao trabalho com o bordado Madeira, mas também a estrear-se na colaboração com bordadeiras e tecedeiras açoreanas —, a ficha técnica volta a ser impressionante.

 

ModaLisboa 58 Béhen
© Francisco Romão PereiraBéhen

 

“Mais uma vez, surgiu tudo em conversa com a minha avó, no meio dos lençóis”, introduz. Mais do que em qualquer outra colecção, esta parte de um lugar especialmente emotivo para a designer. Partidas e despedidas coincidem agora com o trágico cenário na Ucrânia. “A minha mãe foi mandada, ainda bebé, numa carrinha cheia de pessoas para passar a fronteira até França. O pai do meu avô falsificou documentos para ele não ir para a guerra. O meu tio foi para Angola. O meu tio-avô foi para a guerra em Goa. Sem dúvida que a guerra é um tema presente nesta colecção e infelizmente acabou por coincidir com o momento, mas não era esse o objectivo”, continua.

Na passerelle, a moda encerra toda a carga emocional inerente ao tema e, no entanto, não deixa de deslumbrar quem vê de perto o casaco cheio de estrutura com ponto de Arraiolos, os bomber jackets de silhueta imperial ou o naked dress que exibe um “Béhen” inscrito sobre as nádegas. São objectos de desejo imediatos, daqueles que, em dois anos, Joana aprendeu a construir como ninguém. “Preciso de tempo”, volta a reforçar a criadora, minutos após o final do desfile. “Posso apresentar na próxima edição, posso não apresentar, posso fazer outra coisa. Mas não é um adeus definitivo. Tenho tantas histórias para contar, tantas ideias. Não é um adeus, até porque quero fazer isto o resto da minha vida”. 

 

Béhen
© Francisco Romão Pereira

 

A 58.ª edição da ModaLisboa entra, este sábado, no terceiro dia de desfiles. No Hub Criativo do Beato são esperadas as apresentações de Luís Buchinho, Ricardo Andrez, Luís Carvalho, Hibu e Buzina, entre outros.

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