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LU.CA dá palco a Catarina Requeijo para um monólogo “todo-o-terreno”

todayenero 13, 2022 3

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LU.CA dá palco a Catarina Requeijo para um monólogo “todo-o-terreno”

A tia Odete está com pressa. Para não se atrasar, até pôs o tio Alfredo a fazer o almoço. Mas, com tamanho entusiasmo, não se consegue conter. Tem mesmo, mesmo de nos contar: vão fazer um museu na Bobadela em honra da Manela, a sua sobrinha automobilista. É imperativo encontrar o seu primeiro troféu, revela-nos sem nunca deixar de rimar. O único problema é não fazer ideia, no meio de tanta relíquia guardada na garagem, onde está a tão famosa taça. Enquanto a procura, solta a língua e recorda a primeira vitória da menina dos seus olhos. Com texto de Catarina Requeijo e Inês Barahona, Não há duas sem três convida as famílias a viajar metaforicamente até esse lugar de aventuras e surpresa que é a feira popular. Este monólogo “todo-o-terreno”, que encerra uma trilogia mas dispensa o visionamento das peças anteriores, estreia no LU.CA ‒ Teatro Luís de Camões já na sexta-feira, 14 de Janeiro.

Tudo começou em 2012, com A Grande Corrida, um espectáculo encomendado e produzido pela Fundação Calouste Gulbenkian. “Essa primeira história surgiu num concurso da Gulbenkian, o Pequeno Grande C, que era lançado às escolas para escreverem um álbum ilustrado. Eu fui tutora de um dos módulos desse concurso e a Maria de Assis convidou quatro ou cinco artistas para fazer espectáculos a partir dos textos que tinham sido seleccionados. Na altura, chamei a Maria João Castelo, que faz também cenografia e figurino, e a Inês Barahona, para trabalharem comigo”, conta Catarina Requeijo, que se inspirou nas peripécias de A Grande Corrida, da Escola Básica de São João de Deus, para criar uma peça novinha em folha. “O texto também é todo em rima e tem uma estrutura de repetição e acumulação, muito decalcada das histórias tradicionais.”

Catarina Requeijo em palco
Fotografia: Raquel MoreiraNão há duas sem três, de Catarina Requeijo e Inês Barahona

Se n’A Grande Corrida, ficamos a conhecer a Manela, uma corredora de automóveis com um lema muito catita (“Desistir nem pensar, com a Manela é sempre a andar”), na segunda peça da trilogia dedicada à família Querido os espectadores têm oportunidade de ver tudo a acontecer pela perspectiva da tia Odete e do tio Alfredo, que ouviram a sua sobrinha a ganhar o Grande Prémio da Batalha através do rádio, na sequência de não um mas vários acidentes. Muita Tralha, Pouca Tralha, assim se chama a sequela, foi escrita a convite de Susana Menezes, a actual directora artística do LU.CA, que na altura dirigia o serviço educativo do Teatro Maria Matos. O sucesso foi tal que Susana Menezes, já no Teatro Luís de Camões, voltou a convidar Catarina Requeijo para fazer das suas. “Como gosto muito destes espectáculos e desta equipa, resolvemos dar novamente vida a estes personagens.”

Nesta terceira incursão, Odete Querido conta como, ainda a Manela só tinha sete anos, a levaram à feira popular para um dia em família. Mas, para seu infortúnio, a sua sobrinha espevitada aproveitou uma distração para desaparecer à francesa e, nem com um balão vermelho preso à mão, foram capazes de a avistar no meio da multidão. Com muita graça e agilidade, Catarina Requeijo, que nesta peça não só é encenadora como também é a única actriz, dá vida à tia orgulhosa, que imita maldosamente o tio rezingão (“seria um caso a ser denunciado, mas tem um efeito muito cómico”), e até à Manela, que ficou de aparecer para almoçar com os tios. Sem nunca sair da garagem, faz uso de uma estante e de toda a tralha lá acumulada, dos rolos de cabelo às fotografias a sépia, para evocar os incidentes e imprevistos desse dia. À laia de magia, transforma uma roda de bicicleta numa montanha-russa, num carrossel e até numa mesa de piquenique. E, como se não fosse suficiente, o guarda-roupa vira comboio fantasma e os truques sucedem-se por entre os risos da plateia.

Catarina Requeijo em palco
Fotografia: Pedro MacedoNão há duas sem três, de Catarina Requeijo e Inês Barahona

“A questão de falar em rima já veio do primeiro espectáculo, porque o texto de onde partimos colocava esse desafio e apeteceu-me aceitá-lo. O passo seguinte foi pensar como contar a história. Naquela altura, eu contava muitas histórias para crianças, como O Nabo Gigante e A Formiga e a Neve, que repetem muitas vezes a mesma coisa e vão acrescentando sempre mais. Essa estrutura resulta muito bem e temos feito uso dela”, desvenda-nos Catarina. “É um exercício de memória, que para os miúdos é muito fácil. Conheço alguns que sabem os refrões dos espectáculos de cor, apesar de já os terem visto”, diz a encenadora e actriz, que espera ver a proeza a repetir-se neste Não há duas sem três, que não acontece em palco, mas no chão, bem pertinho dos espectadores, desafiados a sentar-se à chinês, em almofadas fofas.

Em cena no LU.CA até 30 de Janeiro, com sessões para escolas e famílias, inclusive sessões com Língua Gestual Portuguesa (21 e 22 de Janeiro) descontraídas (23 de Janeiro) e com audiodescrição (29 de Janeiro), Não há duas sem três tem todas as características necessárias para ser um espectáculo portátil, nomeadamente poucos recursos técnicos, o que permitirá fazer digressão, com paragens a onde os objectos artísticos normalmente não chegam. “Quero realmente que seja todo-o-terreno. Na rua, por exemplo, terá de conviver com muito ruído, sonoro e visual. Não terá obviamente alguns dos meios que temos num teatro, mas irá ganhar outras coisas”, assegura Catarina, que gostava de o levar a jardins, praças, bibliotecas e até adros de igreja. “Esta peça beneficia muito do poder transformador dos objectos, que se foi perdendo um bocadinho. Esta coisa de um pau é uma escada mas também é outra coisa qualquer. Brincar com isto abre possibilidades, às crianças que vêm ver e aos adultos que as acompanham.”

LU.CA ‒ Teatro Luís de Camões. Calçada da Ajuda 80 (Ajuda). De 14 a 30 de Janeiro. Famílias: Sex (14) 18.30. Sáb e Dom (15, 16, 22 e 29) 16.30 e Dom (23 e 30) 11.30 e 16.30. 3€-7€.

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Escrito por Comunicación Cultural

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