music_note
  • ¡HAZ TU PROGRAMA!
  • ¿QUÉ HACEMOS POR TI?
  • EVENTOS LATINOS
  • CONTACTO

ACTUALIDADE EM PORTUGAL

‘The Serpent’: a história de um assassino que odiava turistas

todayabril 1, 2021 4

Fondo
share close

Charles Sobhraj é um manipulador. Reconhecido como intrujão, condenado como ladrão e falsificador, é sedutor, astuto, audaz, provocador, amoral. Mitómano, egomaníaco, talvez psicopata. Os adjectivos continuam, e já todos foram usados para descrever este homem, de ascendência indo-vietnamita e nacionalidade francesa. Um epíteto, contudo, destaca-se no meio do extenso rol: assassino em série. Lá pelo meio, porque não é esse o princípio nem o fim da sua história. Corresponde a apenas dois anos (1975-76) de uma vida ímpar que se cruza com celebridades do submundo como Carlos, o Chacal, torcionários nazis como Klaus Barbie, ou o antigo Presidente jugoslavo Slobodan Milošević, que morreu quando ainda era julgado por crimes contra a humanidade, crimes de guerra e genocídio. Sobhraj é uma figura. Aos 76 anos, a cumprir prisão perpétua no Nepal, volta a ver-se retratado no ecrã: depois do telefilme Shadow of the Cobra (1989) e da incursão por uma das suas fugas da prisão em Main Aur Charles (2015), a Netflix apresenta The Serpent, minissérie de oito episódios, co-produzida pela BBC One, com estreia agendada para esta sexta-feira. É o momento por que, porventura, mais ansiava: fama global, imortalidade.

“A serpente” era o cognome por que Sobhraj era conhecido, dada a facilidade com que escapava às autoridades e até mesmo do cárcere. Hoje, sabemos os seus truques: cobrava favores, corrompia agentes e forjava documentos, em particular os passaportes que recolhia das suas vítimas mortais, recorrendo a eles para viajar entre os países do Sudeste Asiático. Tailândia, Nepal, Índia, Singapura, Malásia. Sobhraj movia-se pelo chamado “hippie trail”, o caminho percorrido pelas “flower children” desde o coração da Europa até esta região do mundo, à boleia, em carripanas comunitárias ou pelas vias férreas turcas e iranianas, cruzando as fronteiras porosas do Afeganistão e do Paquistão, em viagens longas, baratas, de autodescoberta. Gente decidida a ir ao encontro de outras culturas, curiosa com as comunidades locais, ávida, e por isso também mais crédula e desprotegida. Sobhraj aproveitava-se disso. Crisóstomo, comportava-se quase como o líder de um culto – quando o que pretendia de facto era ser líder de um gangue. Exigia ser o centro das atenções, talvez por se ter sentido preterido durante a infância em favor do meio-irmão mais novo (que também arrastaria para a marginalidade); e exigia lealdade. Se se considerava posto em causa, era hora de matar. Sem remorsos. Charles Sobhraj odiava hippies.

A forma como atraía e conquistava a confiança destes viajantes era particularmente retorcida: por norma, envenenava-os com bebidas adulteradas, oferecendo-lhes ajuda e guarida até à recuperação total. As vítimas ficavam agradecidas, em dívida, susceptíveis. Depois haveria de as matar, por afogamento, por overdose, ou queimando-as vivas. Foi o que aconteceu a um jovem casal holandês, Henk Bintanja e Cornelia Hemker, cujo desaparecimento pôs no encalço de Sobhraj um diplomata holandês em início de carreira, Herman Knippenberg, que viria a desempenhar um papel central na investigação aos seus crimes. The Serpent apoia-se nas indagações de Knippenberg (interpretado por Billy Howle, o filho da minissérie MãePaiFilho, que passou na RTP) para nos lançar num thriller criminal de elevada tensão dramática. Aqui, Charles Sobhraj (Tahar Rahim, nomeado para um Globo de Ouro por O Mauritano) é propositadamente contido, algo que tem sido notado por quem conviveu com ele (no Reino Unido, a série passou no início do ano). A ideia era impedir que a ficção acabasse por glorificar esta figura vistosa e carismática dos Seventies, embora a excentricidade esteja lá, sobretudo através da sua faceta de negociador de jóias. Para deixar claro o efeito que Sobhraj tinha sobre as pessoas, contamos com Marie-Andrée Leclerc (Jenna Coleman, Rainha Vitória), uma enfermeira franco-canadiana que se apaixonou por ele, e que se tornou a mais devota das suas seguidoras e a sua segunda mulher de facto.

Existem provas de que Sobhraj matou pelo menos 12 pessoas. A primeira delas é anterior a esta narrativa. Perpetrado no Paquistão anos antes, não é só no tempo e no espaço que esse homicídio inaugural difere dos restantes: a vítima era um taxista local; as restantes 11, concentradas nos anos de 1975 e 1976, eram todas jovens turistas ocidentais. Sobhraj montava-lhes uma armadilha deliberadamente. Os motivos para o fazer não são conhecidos. À excepção de uma série de entrevistas concedidas aos jornalistas Richard Neville e Julie Clarke, que originou o livro The Life and Crimes of Charles Sobhraj (1979), sempre negou a autoria dos homicídios. Choque cultural não foi: Sobhraj cresceu em Paris, para onde a família se mudou quando ainda era miúdo. A iniciação ao crime dá-se, aliás, na capital francesa. A compulsão para a violência, traço comum dos assassinos em série, também parece não ter sido. Quem o conheceu ensaia uma outra hipótese: as mortes faziam parte do estilo de vida que cultivava. Ele nega. E passou 20 anos preso na Índia por vários crimes, após estes acontecimentos, nenhum dos quais homicídio. Foi libertado em 1997, regressando a Paris (em 2003, sentindo-se talvez esquecido enquanto homem livre, decidiu voltar ao Nepal, onde era procurado por dois dos homicídios – acabou preso e condenado a uma pena de prisão perpétua). Na altura em que esteve na Europa, no final dos anos 1990, deu várias entrevistas, uma das quais a Andrew Anthony, que manteve contacto com Sobhraj desde então. O jornalista do britânico The Observer escreve agora que a série da Netflix e da BBC “faz um bom trabalho a juntar as peças da história e recria parte da atmosfera confusa e desordenada do hippie trail e da vida despreocupada dos expatriados europeus em Banguecoque. Mas o próprio Sobhraj permanece impenetrável”.

Netflix. Sex.

+ Cinco séries a não perder em Abril

+ Leia grátis a Time Out Portugal desta semana

Escrito por Comunicación Cultural

Rate it

Artículo anterior

ACTUALIDADE EM PORTUGAL

Os Três Irmãos, de Victor Hugo Pontes e Gonçalo M. Tavares, chegam hoje São Luiz

Os Três Irmãos é o resultado de um encontro feliz entre o coreógrafo e encenador Victor Hugo Pontes e o escritor (cada vez mais próximo das artes performativas) Gonçalo M. Tavares. Estreado em Setembro no Teatro Viriato, em Viseu, este espectáculo chega agora ao palco digital do São Luiz Teatro Municipal, onde estará em cena de 1 a 4 de Abril, seguido de dois momentos: Irmãos, um documentário de Miguel […]

todayabril 1, 2021 9


Portuguese PT Spanish ES
0%